CANTO DOS EXILADOS

Brill, Marte


Escritora, jornalista
Colônia 5.9. 1894 - São Paulo, 20.10. 1969
No Brasil, de 1934 a 1942


Marte Brill chegou ao Brasil junto com a filha Alice. No Brasil, escreveu o romance autobiográfico Schmelztiegel (Caldeirão), publicado em 2003 pela Edition Buechergilde GmbH. Até 1933, a autora foi colaboradora do jornal de turismo da linha de navegação Hamburg Süd. Escrevia também regularmente para o Hamburger Fremdenblatt e para a rádio de Hamburgo. Com a ascensão do nazismo, foi despedida devido à sua ascendência judaica e decidiu deixar a Alemanha já em 1933. Depois de passar por Espanha, Itália e Holanda, foi com sua filha ao Brasil. Durante muitos anos, Marte Brill trabalhou como secretária do 1º comitê de auxílio para refugiados alemães, sendo sua tarefa encontrar moradia para famílias sem meios financeiros e, às vezes, com muitos filhos. Marte Brill tinha, segundo sua filha, uma convicção socialista e antinazista. Voltou do Brasil para a Alemanha e morreu em 1942 no campo de concentração de Riga (capital da Letônia). Marte Brill não participou de grupos antifascistas, apesar de suas convicções políticas, pois os grupos existentes eram desconhecidos da maioria dos exilados. A filha Alice Brill Czapski cita ainda outros motivos para esta abstinência política: “É preciso lembrar que tivemos que nos integrar aqui ao tempo de Getúlio Vargas e que, na qualidade de ‘estrangeiros inimigos’, não tínhamos acesso aos arredores de São Paulo e ao litoral. Não se fazia diferença entre alemães e refugiados e Getúlio era claramente fascista. Minha mãe quis publicar o seu romance Der Schmelztiegel (O cadinho), e a publicação estava praticamente acertada com a Editora Brasiliense, mas o editor não teve coragem de editar um livro nitidamente antifascista (...) Voltando à nossa postura política, lutamos sempre ativamente contra o nazismo. Muito jovem, assinei apelos pacifistas, o que não deixava de ser perigoso para nós, nessa época. Por outro lado, não sei de nenhum grupo de oposição ao qual pudéssemos ter aderido”. O romance de Marte Brill, nitidamente autobiográfico, permanece inédito até hoje, assim como o seu estudo sobre a última visitação do Santo Ofício em Maiorca. O romance de Marthe Brill proporciona uma visão valiosa das condições políticas e sociais do Brasil como país de asilo e fala da luta pela sobrevivência das pessoas “comuns” e desconhecidas. É também, sobretudo, um testemunho da vontade da autora de se integrar ao caldeirão de culturas que é o Brasil.


Fonte: Izabela Maria Furtado Kestler, Exílio e Literatura, São Paulo: Edusp, 2003.