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![]() Rónai, Paulo ![]() Escritor, filólogo, professor e tradutor A vida de Paulo Rónai, filho de livreiro, sempre foi cercada de livros e curiosidades sobre idiomas. Formado em Literatura e Línguas Latina e Neolatina em 1923 na Universidade Loránd Eötvös, desde os sete anos já nutria uma grande vontade de decifrar línguas. Em Como aprendi português e outras aventuras conta que, adolescente, alimentava “em segredo a esperança de assenhorear-me, com o tempo, do maior número possível de idiomas: vinte, trinta, talvez ainda mais.” Um de seus professores lhe assegurou que “só os 15 primeiros eram difíceis”. Assim, nos sebos europeus, adquiria os mais diversos livros e gramáticas para estudá-los depois. Principiou o estudo de várias línguas, dentre elas o hebraico, o finlandês, o sânscrito, o dinamarquês e o turco... Professor de latim e língua italiana em colégios de Budapeste, Rónai também se especializou em literatura francesa ao defender uma tese sobre Balzac, em 1930. E, com bolsa de estudos do governo francês, passou uma temporada entre 1930 e 1932 na Sorbonne. Neste período, por causa de uma coleção de poesia de línguas latinas que conheceu na França, tem seu primeiro contato com a língua portuguesa, através de As cem melhores poesias da Língua Portuguesa, antologia organizada por Carolina Michaëlis, encomendada em um sebo de Paris. E a curiosidade por este idioma, a primeira vista fácil, tornou-se uma paixão. Com auxílio de um dicionário de português-alemão, começa a aprender este idioma que dava a ele “a impressão de um latim falado por crianças ou velhos, de qualquer maneira gente que não tivesse dentes. Se os tivesse, como haveria perdido tantas consoantes?”, ou uma língua “alegre e doce como um idioma de passarinhos”, como dizia um escritor húngaro conhecido de Rónai... Em 1939 publicou a primeira tradução de literatura brasileira na Europa Central Mensagem do Brasil: poetas brasileiros contemporâneos. Nomes como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Mário de Andrade, mesmo não muito conhecidos aqui ainda, eram celebrados em Budapeste. Também é da autoria de Rónai, provavelmente, a primeira versão do emblemático poema de Drummond No meio do caminho para uma língua estrangeira. Mas, quatro dias depois da publicação do livro de Rónai, tanques alemães invadiam a Polônia, e o Brasil e sua literatura, que começavam a serem conhecidos no exterior, foram encobertos pelo horror da guerra que se aproximava. Perseguido pelo governo húngaro pró-nazista, Rónai ficou preso em um campo de trabalho numa ilha do Danúbio, foi obrigado a trabalhar como escravo na demolição de um edifício e na construção de outro idêntico a poucos metros do mesmo local, sem ferramentas. Durante o inverno, os prisioneiros puderam sair da ilha - o professor aproveitou este momento para fugir da Hungria. Os que voltaram ao campo de concentração não tiveram a sorte de sobreviver. Graças ao intermédio de Ribeiro Couto, na época cônsul do Brasil na Holanda, e aos serviços prestados à literatura brasileira, ao divulgá-la em seu país, Rónai consegue uma permissão para visitar o Brasil com direito a uma bolsa de estudos por um ano, a pedido do Itamaraty. Em 28 de dezembro de 1940, embarcou para o Brasil via Lisboa e chegou ao Rio de Janeiro em 3 de março de 1941. Conhecedor do português, a expectativa da nova experiência lingüística o consolava. Mas nas seis semanas que ficou em Portugal, sofreu grande decepção com a língua falada nas ruas, da qual nada entendia, compreendendo-a apenas em jornais e revistas. Este tormento, levado consigo na viagem, se desfaz quando chega em terras brasileiras, como relata depois em Como aprendi o português: “Que alívio logo de entrada! O Brasil recebia-me com uma linguagem clara, sem mistérios... Ainda não desembarcara, e já não perdia nenhuma das palavras...O deslumbramento continuou na rua, no primeiro táxi, no hotel. O idioma que eu aprendera em Budapeste era mesmo o português!”. A amizade com o idioma gerou muitos trabalhos e enriquecimento aos estudos de nossa língua, principalmente na área da tradução. Logo nos primeiros 10 dias no Brasil conheceu Aurélio Buarque de Holanda. O encontro inusitado deu-se na redação da Revista do Brasil, onde Aurélio Buarque era secretário e Rónai fora levar um artigo cujo título era “Viajantes húngaros no Brasil”, para tentar publicá-lo. Aprovado o artigo, que Rónai teve de traduzir, pois o apresentou em francês, o revisor apontou vários erros de português, mas, ao saber que o magiar estava no Brasil havia apenas poucos dias, pôs-se a ensinar o que deveria ser corrigido. Deste encontro nasceu uma longa e forte amizade, que durou mais de 40 anos. Os dois amigos realizaram muitos trabalhos em conjunto, como a tradução dos contos de Mar de histórias: antologia do conto mundial, um projeto que durou 44 anos. Professor durante muitos anos no Rio de Janeiro, Rónai lecionou no Colégio Metropolitano de 1941 a 1943 e no Liceu Francês de 1941 a 1949. Deu aulas de francês e latim em escolas municipais entre 1941 e 1977. Professor do Colégio Pedro II desde 1952, torna-se catedrático de francês em 1958, alcançando o 1º lugar em concurso acompanhado pela imprensa. Foi também catedrático da Faculdade de Humanidades Pedro II entre 1974 e 1977, fundando a Associação dos Professores de Francês do Rio de Janeiro, alguns anos depois. Dessa experiência como professor, Rónai publica alguns livros muito conhecidos por alunos de letras: Gramática completa do francês (1969), Não perca o seu latim (1980), Gradus primus (1985) e Gradus secundus (1986)... Seu primeiro trabalho importante no Brasil foi a organização da tradução de A comédia humana, de Honoré de Balzac, para o português, um projeto da Editora Globo de Porto Alegre. Para contextualizar o leitor brasileiro a respeito da França da época de Balzac, Rónai elaborou mais de 7 mil notas de rodapé para os 89 livros da Comédia humana e escreveu os prefácios de cada uma das suas obras, pois julgava insuficiente apenas uma apresentação geral do conjunto. O projeto, composto por 17 volumes, com a primeira publicação em 1945, levou dez anos para ser concluído (...). Outro trabalho de Rónai que merece destaque é a tradução de contos magiares reunidos na Antologia do conto húngaro, publicado em 1957, com prefácio de seu amigo João Guimarães Rosa (...). Pioneiro na reflexão sobre o ofício de traduzir no Brasil, o trabalho de Paulo Rónai não ficou restrito ao campo prático da tradução. Exerceu grande influência sobre o assunto e foi um grande militante da classe de tradutores, atividade não reconhecida como profissão àquela época (...). Com a publicação de Escola de tradutores, em 1952, Rónai inaugura um diálogo antes negligenciado pelos pensadores e estudiosos das línguas no Brasil (...). Paulo Rónai foi responsável por mais de cem prefácios e apresentações de escritores brasileiros e estrangeiros. Escreveu, além de Escola de tradutores (1952), A tradução vivida (1981), um prolongamento do primeiro livro, como lembra o autor; Como aprendi o português e outras aventuras (1956); Seleta de João Guimarães Rosa (1973), como organizador; Não perca o seu latim (1980); Dicionário francês-português (1980); Mar de histórias: antologia do conto mundial, com Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1945). Colaborou em diversos periódicos, traduções e antologias. É dele também uma tradução de Memórias de um sargento de milícias (1944), de Manuel Antonio de Almeida, para o francês e a tradução de Os meninos da rua Paulo (1971), do húngaro Ferenc Molnár. Fonte: IMS - excertos do texto Paulo Rónai, 100 anos, Sérgio Barbosa da Silva, publicado pelo Instituto Moreira Salles. ![]() |